Edição Anotada das Cartas de João do Rio a João de Barros

“Muito d’Alma…” – Cartas de 1909 a 1921  
Projeto de edição crítica da correspondência de João do Rio a João de Barros

Claudia Poncioni
Virginia Camilotti

Na Biblioteca Nacional de Portugal foi depositado em 1985, por Henrique de Barros, o espólio literário de seu pai, João de Barros. No conjunto de cartas literárias recebidas pelo poeta e político português encontram-se 62 cartas de João do Rio. Enviada entre 1909 e 1921, a correspondência contém elementos decisivos sobre as relações entre escritores e intelectuais dos dois lados do Atlântico, definindo-se, a um só tempo, expressão e dispositivo, ela própria, à constituição de uma verdadeira rede de relações entre o Brasil e Portugal, envolvendo as esferas da política, das letras e do jornalismo. 

O texto a ser editado foi estabelecido a partir de fotografias digitais que a Biblioteca Nacional de Portugal colocou à disposição da pesquisa. Todas as cartas são manuscritas. Se a letra de João do Rio não apresenta maiores dificuldades de compreensão, algumas referências a personagens exigem, por vezes, trabalho paleográfico. É o caso, por exemplo, do dramaturgo Eduardo Schwalbach que João do Rio grafa apenas “Schw”. A especificidade desta correspondência – expressão e expediente à constituição de uma rede de relações entre Brasil e Portugal – demanda que as personagens citadas ou referidas sejam claramente identificadas. Neste sentido, qualquer hipótese necessita de confirmação por meio de minuciosa pesquisa bibliográfica e em arquivos. 

Questão fulcral na edição dessa correspondência é o facto de apenas 6 das 62 cartas serem datadas. Isto demanda um trabalho pormenorizado a partir de pequenos indícios presentes nas missivas, indícios vinculados à biografia e à bibliografia dos dois correspondentes ou ainda relativos a eventos históricos, para que possa ser determinada a ordem cronológica da correspondência. 

A natureza das notas críticas que a edição dessa correspondência exige decorre de sua própria especificidade — tanto fomentadora como consequência de relações entre jornalistas, políticos e literatos dos dois lados do Atlântico. A dimensão e a abrangência temporal das notas sobre personagens, instituições, obras, periódicos tem, portanto, a missão de sintonizar o leitor com a historicidade das cartas.