Dicionário dos Antis: A Cultura Portuguesa em Negativo

O objetivo deste projeto é o estudo sistemático de todas as correntes e discursos centrados numa perceção negativa de um “Outro” (p. ex. antissemitismo, anticlericalismo, antibritranicismo) na história de Portugal desde o século XII até aos nossos dias. O resultado deste projeto será um dicionário enciclopédico com os discursos “anti” identificados e pesquisados pela equipa de investigação. No seu conjunto, o estudo destes discursos permite construir a forma como a cultura portuguesa percebeu/criou diferenças ameaçadoras. Trata-se pois de apresentar a história da cultura numa imagem em “negativo”, para empregar uma metáfora fotográfica. 

Como acontece com as nações europeias mais antigas, a cultura e a história de Portugal conheceram numerosos discursos e práticas antagonizando um “Outro”. Pode-se identificar a permanência destes discursos na longa duração. A modernidade, com as suas oposições ideológicas e com profundas divisões religiosas e políticas, foi fértil em semelhantes movimentos. Todavia, estão por estudar os seus laços com construções discursivas pós-modernas uma vez que se centravam num “Outro hostil” que constituía uma ameaça real ou imaginária a valores comunitários, construções essas que eram essenciais para a criação de identidades mais amplas. De igual modo, a atual “morte das ideologias” não erradicou práticas e discursos que demonizam ideias/grupos/comunidades dentro da sociedade. Aliás, o presente desenvolveu novos discursos “anti” em forma de teorias da conspiração que alegam denunciar a atividade de um “Outro” maligno, de riscos coletivos impessoais (e. g. antiterrorismo, antitabagismo) e de “questões fraturantes”. Em todos estes casos, existe uma perceção em “negativo” de um Outro que deriva de uma compreensão positiva do “Nós”. Por isso mesmo, trata-se de uma imagem em “negativo” da cultura. 

Apesar dos diferentes veículos e impactos, todos estes discursos (que designamos por “anti”) têm recorrido a diversas estratégias para apresentar a mundividência, o estilo de vida, as crenças ou a ideologia de outros como uma ameaça aos valores positivos de cada sociedade. Na medida em que respondem a debates ideológicos em curso ou conflitos e tensões existentes entre grupos/classes/etnias/géneros e religiões, estes discursos são “novos”. No entanto, raramente originais e importando argumentos de outras situações de confronto passadas, são também “velhos”. Por outras palavras, devem ser estudados através da história, mais exatamente através de uma história que atenda à “longa duração”. Assim, este estudo, que é necessariamente interdisciplinar, deve ter em conta os “arquivos”, por vezes cronologicamente profundos, a que os discursos “anti” recorrem. 

Este projeto pretende localizar de forma precisa estes discursos e as práticas em que se fundam na sua espessura temporal através de um conjunto de monografias críticas de cada movimento “anti” identificado, que serão as entradas do dicionário enciclopédico. Além do seu contributo empírico, o dicionário permitirá uma reflexão mais profunda sobre os fundamentos teóricos das produções discursivas “anti”. O estudo metódico de uma quantidade significativa de discursos “anti” permitirá uma reflexão profunda sobre os limites da modernidade. A opção metodológica pela longa duração revela-se indispensável porque permite testar as ruturas entre modernidade, pré-modernidade e pós-modernidade. Embora se possa atribuir ao período pré-moderno a produção de discursos “anti”, estes poderão ser compreendidos no quadro da chamada “civilização de combate”, uma sociedade estruturada por uma ortodoxia com modelos religiosos e sociais rígidos afirmados em antagonismo com outras sociedades. Todavia, nas sociedades abertas estes tipos de discurso permanecem.

O estudo dos discursos “anti” na longa duração permitirá responder a uma carência concreta da historiografia portuguesa e europeia. Com efeito, não existe nenhum trabalho de investigação semelhante que seja do nosso conhecimento em países como o Reino Unido, França e Alemanha. O carácter inédito do projeto assegura-lhe desde já indiscutível relevância internacional, uma vez que será o precursor de tentativas semelhantes noutros países, de acordo com alguns consultores externos e membros estrangeiros da equipa de trabalho.