Dicionário Histórico-Crítico das Heresias

O conceito de Heresia definiu-se na civilização cristã por processos de diferenciação, dissidência e divergência doutrinal em relação a uma ortodoxia que se foi definindo como tal no âmbito da institucionalização do Cristianismo e da sua sistematização doutrinal. 

É, com efeito, vasto o conjunto dos movimentos e correntes heréticos e de dissidência que surgiram e proliferaram nos diferentes espaços onde se implantou o Cristianismo. A definição de heresia aqui tomada como conceito operativo será aquela que engloba as correntes doutrinais que divergiram da ortodoxia aqui tomada como referência: a ortodoxia estabelecida pela Igreja com o poder que se foi centralizando progressivamente em Roma. Esta ortodoxia ganhou especial força e consistência com o processo de constantinização da Igreja, que conduz à sua romanização em termos de referência a uma liderança reconhecida pelos que se revêm na sua doutrina, considerada como verdadeira. 

O edifício doutrinal ortodoxo foi-se modelando e definindo ao longo dos séculos através dos concílios ecuménicos e pela suprema autoridade eclesiástica representada pelo Sumo Pontífice romano. Estes, através de atos formais de afirmação de uma verdade doutrinal e a condenação expressa do que consideravam correntes ou doutrinas erróneas, acabaram, por referência à sua ortodoxia, por estabelecer de forma objetiva o que na sua ótica era heresia anatematizada. A hoje conhecida pelo nome de Igreja Católica acabou por se tornar a herdeira deste processo histórico de consolidação de uma ortodoxia eclesiológica e teológica adjetivada hoje como católica, afirmando-se como tal em disputa e concorrência com os cismas e heresias que fraturaram a cristandade universal. 

É conhecida a vastidão, a influência e a importância das chamadas heresias que se afirmaram nas diferentes épocas da história do Cristianismo. De facto, o conhecimento e a compreensão da história da cultura, da política, da religião e das mentalidades destes últimos dois mil anos da história marcada pelo Cristianismo passa também muito pelo papel modelador do pensamento considerado herético. 

A própria compreensão da forma como se impôs uma determinada ortodoxia só tem a beneficiar com o seu confronto polémico com formulações doutrinais em concorrência. 
São diversamente complexas as razões da afirmação daquilo que se consubstanciou e afirmou na civilização cristã ocidental como ortodoxia, por oposição à heterodoxia. A heresia, que é a expressão dinâmica do pensamento heterodoxo, pode ser designada de muitas formas: dissidência, marginalidade, cristianismo derrotado.

Nesta obra de síntese e de sistematização do conhecimento já adquirido em torno da história das correntes heréticas, pretendemos proceder a uma abordagem interdisciplinar aliando, nomeadamente, a Teologia à História da Cultura e das Mentalidades, a Filosofia às Ciências Literárias, entre outros domínios do saber. 

Sente-se a falta de um instrumento de estudo sintético, atualizado, que sistematize o conhecimento dos grandes movimentos heréticos e outras dissidências, destacando a imbricação na cultura e as suas múltiplas expressões desde a filosofia até à arte. Com a elaboração de um dicionário sobre as heresias, dando especial atenção às suas expressões na história e cultura, pretende-se colmatar esta lacuna. 

Do ponto de vista da investigação e da sistematização de conhecimento, importa deixar claro que esta obra pretende abarcar apenas a problemática da heresia dentro e tão-só do universo do Cristianismo e por referência específica a uma dada ortodoxia referida anteriormente. Conscientes de que o conceito de heresia e o fenómeno dos movimentos heréticos por referência a uma ortodoxia se verificam no quadro de outros sistemas religiosos, políticos, culturais, etc., queremos apenas aqui, por razões de circunscrição temática e economia de meios, tratar da heresia no quadro do Cristianismo. 

Do ponto de vista do horizonte cronológico, pretendemos levar a cabo uma síntese de conhecimento inscrita na perspetiva da longa duração. Assim, o dicionário pretende abarcar a sistematização de conhecimento das correntes heréticas desde os primórdios do Cristianismo até ao Concílio Vaticano II.